Uma proposta de intervenção artística em territórios entre o uso e o abandono, o preenchimento e o vazio, a apropriação e o esquecimento. Esses espaços podem ser território para o campo da arte, reconsiderando a destruição como condição de reconfiguração espacial. A mudança da paisagem arquitetônica gera experimentação cultural. O projeto propõe que o público transite por territórios não usuais, destituídos de sua função original, provocando um deslocamento de pensamento. No ano passado, um dos projetos dentro do Permanências e Destruições, “Cota 10″, ganhou prêmio de arquitetura do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo.

O projeto Permanências e Destruições, que teve sua primeira edição em 2015, voltou ao RIo em 2016. Esse cenário urbano em constante e intensa mutação, permeado, nos últimos anos, por estruturas dissolvidas, explosões e implosões, desativações, ruínas e vazios, será ocupado pelo projeto pioneiro, que preenche espaços inativos da cidade com intervenções e performances artísticas. Com curadoria de João Paulo Quintella, patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e da Oi, através da Lei de Incentivo à Cultura, e apoio cultural do Oi Futuro, Permanências e Destruições teve entre os espaços ocupados desta edição a Torre H, construída por Oscar Niemeyer, na Barra da Tijuca, nos anos 1980, mas jamais concluída; a Ilha do Sol, que pertenceu à artista Luz del Fuego, que foi bailarina, naturista e uma das primeiras feministas do país; e uma ação no morro do Alemão cujo mote é a qualificação de um terreno para que se torne um espaço de lazer para diversos usos dos moradores, ou seja, a primeira proposta do Permanências e Destruições que tem a ver com a instância da permanência, da continuidade.

O que rolou:

Ilha do Sol
A Ilha do Sol pertenceu à artista Luz del Fuego, que foi bailarina, naturista e uma das primeiras feministas do país. Também é considerada a primeira área usada para naturismo no Brasil. Em 1967, Luz del Fuego e seu caseiro foram assassinados. Após a sua morte, a Ilha do Sol voltou a ficar desabitada. A construção resiste com dificuldade ao tempo, com as paredes e a laje ruindo, onde inclusive, ainda se pode ver desenhadas as duas cobras que ajudaram a eternizar a imagem da dançarina. O objetivo dessa ocupação foi discutir a água como território, pensar a Baía de Guanabara como a via inicial da cidade, usufruída até o seu esgotamento.

Artistas que ocuparam este espaço:

Ronald Duarte
Encadeado em sua prática artística de ação, de encarar o espaço público abjeto e sua intimidade com o mítico, aqui, Ronald Duarte propõe uma instalação e um ritual. Da geologia local, ele oferece ao seu orixá Xangô, as rochas. Ao público, como sacerdotes, um almoço.

Aleta Valente
A relação da artista começa a partir de uma residência que ela faz na ilha. A então morada da mítica Luz del Fuego, hoje é tomada por Aleta Valente. Em continuidade à sua pesquisa artística e poética, Aleta capta cenários da ilha e sua própria imagem, e relaciona-os com a maneira como elas são veiculadas, criando uma confusão entre mito e veracidade, vestígio e prenoção, para os visitantes.

Jonas Arrabal
Uma proposta de afastar-se daquele pedaço de terra cercado por água para lançar atenção para a Baía de Guanabara. Dentro de um bote quase à deriva, o público ouve através de fones os pensamentos do artista sobre a relação que ele estabelece com a Baía, a paisagem daquele ponto de vista e o apartamento em terra firme.

Torre H
A Torre H, construída por Oscar Niemeyer, na Barra da Tijuca, nos anos 1970, jamais foi concluída. O prédio abandonado aparece como uma espécie de duplo inóspito da torre idêntica que fica ao seu lado, habitada, suscitando questões sobre espelhamento e identidade. A inclusão do edifício também lembrará o público sobre um projeto de Zona Oeste do Rio de Janeiro rascunhado e ensaiado no final do século 20, que não vingou, propondo uma discussão a respeito da recente retomada tentativa de crescimento da Barra, Recreio e adjacências, por conta dos Jogos Olímpicos.

Artistas que ocuparam este espaço:

Angelo Venosa
Duas propostas distintas, que cortam o prédio e a nós mesmos nos eixos vertical e horizontal. A primeira, uma ação de performance como uma solução para vencer a gravidade. Como levar a água, do térreo ao 37o andar. Através da escada helicoidal, a medida de um copo d’água apenas, passa de um recipiente ao outro por meio dos participantes da ação. No decorrer do exercício, o último a passar a água sobe as escadas para o começo da fila. Sempre em sentido ascendente, até o fim. O segundo trabalho, reserva-se a um cômodo de um apartamento-fatia. Antes mesmo de entrar, o seu olho é direcionado por um túnel escuro, ligado diretamente a uma das janelas de formato único. O olhar é isolado àquele pedaço de vista apenas.

Daniel Albuquerque
Em dois trabalhos distintos, Daniel Albuquerque toma elementos do prédio como objetos disparadores da sua produção. No pilotis, o artista atua sobre uma coluna do prédio de modo a transformá-la em um cigarro e, em paralelo, aproxima dele uma escultura em concreto em forma de cinzeiro. O trabalho entra em uma discussão pictórica e escultórica tributária da história da arte. Mais acima, em um dos apartamentos, Albuquerque expõe trabalhos fotográficos em formato fine art mas cujo conteúdo é proveniente das inscrições na parede da própria Torre H.

Janaina Wagner
A artista propõe três trabalhos para a Torre H. No primeiro, apropria-se de uma sala escura de máquinas no último andar do prédio para criar um espaço de projeção onde expõe um vídeo. No segundo, aproveita a circularidade estrutural do prédio para criar um trabalho sonoro no subsolo. No terceiro trabalho, Janaina Wagner usa letra as próprias da sinalização de elevadores para criar um aviso de outra natureza.

Igor Vidor
A proposta é tão divertida quanto atordoante. A olhos nus, a Torre H, para aquela parte da Barra da Tijuca, permanece a mais alta edificação. Na cobertura, no trigésimo-sétimo andar, Igor Vidor instala uma cama elástica que desafia novamente a altura e a gravidade. Jogar-se do alto, mas ter onde cair. A possibilidade de estar mais alto, mesmo que por instantes, de todo o resto, e experimentar a paisagem em fragmentos.

Anton Steenbock
Partindo da ideia de uma montanha artificial, Anton Steenbock enxerga a natureza que retoma aquele lugar, o abrigo encontrado. Talvez a remanescente ruína da civilização moderna. Emprestando as formas encontradas naquele lugar, ele cria um possível abrigo para o homem ausente. O último remanescente, um quelônio, cuja couraça estranhamente lembra as formas do seu ninho.

This Land Your Land
Tomando a Torre como um referencial, mas saindo dela para tentar melhor entender a região, a dupla This Land Your Land pesquisa a presença das águas que esculpem o bairro. Mar, restinga e esgoto, e a correlação entre eles dá substância aos seus questionamentos frente ao preenchimento e urbanização acelerados dessa terra.

Ação no Alemão
“Formamos um grupo para pensar uma ação específica para o projeto. Essa ação foi realizada no morro do Alemão e consiste na qualificação de um terreno com vistas a torná-lo um espaço de lazer capaz de abrigar diversos usos e atender a vontades locais. Com vistas a atuar mais fortemente no debate do espaço público e seus fluxos urbanos, buscamos essa forma potente de desenvolver esta instância de “permanência” num projeto, que, até agora, só tinha explorado as destruições”, narra o curador, João Paulo Quintella.

O projeto para o terreno não segue o mesmo modo operante dos outros espaços. Ao invés de convidar um artista para responder com uma ideia a provocação do espaço, o Permanências e Destruições está tomando parte ativa do processo ao ser mais uma mão a mover uma roda já em movimento, no local. Para isso ser possível, foi feita uma parceria com o Raízes em Movimento, instituto formado por pessoas do Alemão, que atua como representação dos moradores. Também é parte dessa equação a FAU-UFRJ, que já desenvolvia uma matéria de urbanização alternativa no local. Professores e alunos acompanharam o o projeto. Fernando Minto, especialista em métodos construtivos com terra e elementos do próprio solo, sócio do escritório de arquitetura e urbanismo, Matéria Base, e que já participou de várias ações análogas na época do Usina, também é parceiro na empreitada.

Houve uma agenda específica para o local e a presença visual do projeto Permanências e Destruições é bastante importante para fortalecer os laços com o espaço e a ideia sobre uso público deste, no imaginário das pessoas. Complementam a ação workshops de terra, tobogã na encosta e outras possíveis ações que estão sendo debatidas com os moradores. Trata-se ainda de um “work in progress”. A esfera prática e a esfera sensível das intervenções estão presentes, com ineditismo, nessa ação do projeto.

A gente te leva pra dar uma volta, em 360º, na ocupação da Torre H: