Foram dez dias de apresentações, cerca de 30 atrações e um público de mais de dez mil pessoas. Em um ano de crise, o balanço da IV Mostra de Teatro Tiradentes em Cena não poderia ser melhor. “É muito bom vermos todos os espetáculos lotados e o povo indo para a rua, para os casarões e para o teatro celebrar a arte”, comemora a idealizadora do evento, Aline Garcia, que, junto a uma equipe de 30 pessoas, pelo quarto ano consecutivo, tirou o sonho do papel, transformando-o em realidade. Isso, claro, com o amparo da Oi e da Cemig, patrocinadoras do evento.

Em 2016, o Tiradentes em Cena colocou a palavra no centro das atenções, trazendo a poesia de grandes poetas, proporcionando oficinas e resgatando escritores locais.

 

Palco Oi Futuro recebe Nathalia Timberg e outras grandes atrações no primeiro final de semana.

Mais de 700 pessoas prestigiaram, na quinta (5), a abertura da mostra. Nathalia Timberg, a homenageada do ano pelos 60 anos de carreira, deu um show com o espetáculo “Paixão”, de Betty Milan. Durante 60 minutos, com trilha do maestro Júlio Medaglia, a atriz costurou fragmentos de poemas de Adélia Prado, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade e Florbela Espanca, entre outros, para falar das alegrias e dores do amor.

Antes de subir ao palco, Nathalia abordou o público. “Eu me senti extremamente honrada e feliz de estar aqui com vocês. Espero que vocês venham a ter o prazer que eu sempre tive ao lidar com esse texto.” Para a empresária Jana Duarte, a grande dama do teatro brasileiro fez jus ao título. “A performance da Nathalia estava perfeita, com muita classe, como sempre.”

A noite também foi marcada pela homenagem ao autor, diretor e gestor cultural Jota Dangelo. “Eu sei perfeitamente como é difícil trabalhar com cultura nesse país. Na verdade, a cultura é sempre motivo de retórica de todos os políticos, mas, na hora da ação, as coisas são bem mais difíceis. E não só porque os políticos não querem, não é exatamente assim, é que vivemos num país que também tem muitas necessidades, tem muitas carências”, ressaltou.

O representante da Oi Futuro, Sérgio Pereira, subiu ao palco para parabenizar o festival. “Eu sei que é uma luta, e é com emoção mesmo, porque quem trabalha com cultura vive com emoção. Antes da estreia, durante… festival é isso. Então força para vocês, porque cultura tem ser com força, com alegria, com diversão, com arte, com tudo”, disse.

Por último, o Secretário de Cultura de São João Del Rei, Pedro Leão, proferiu algumas palavras. “O Tiradentes em Cena já é patrimônio de todo o Campos das Vertentes. Além de nos proporcionar espetáculos excelentes, ele sempre faz justas homenagens”, arrematou.

A noite de sexta-feira começou com a tão aguardada peça “Calango Deu! Os Causos da Dona Zaninha” (Juiz de Fora), com direção de Isaac Bernat. Durante quase duas horas, a atriz Suzana Nascimento entreteve o público numa celebração aos contadores de casos e contadores. A plateia deu uma gargalhada atrás da outra. “Eu adorei, adoro teatro. Também gosto muito de contar piadas, e essa peça é muito boa”, confirma a dona de casa Maria do Carmo Silva, de 72 anos.

A intervenção musical e brincante Osquindô Circus, do grupo Osquindô (Mariana), alegrou a meninada que assistiu atenta a cada cena do show, realizado no Largo das Forras, na noite de sábado às 20h, com músicas inspiradas no universo do circo brasileiro.

Já às 16h, numa comemoração a altura do Dia das Mães, a criançada se esbaldou no espetáculo “A Incrível Viagem da Família Aço” (Tiradentes), com texto e direção de Lu Gatelli. No palco, o palhaço menino Júnior faz um lindo pedido de aniversário: encontrar sua mãe. E daí, parte para uma viagem de norte a sul do país, conhecendo o imaginário popular e os personagens da alma brasileira: da padroeira do Brasil à lenda do neguinho do Pastoreio. Uma bela história, rica em cada detalhe.

 

Espaços alterativos dão charme ao evento e encantam o público.

Uma das marcas do Tiradentes em Cena desde a sua primeira edição é a ocupação de espaços alternativos, seja nas ruas ou nos sobrados históricos da cidade. Um dos pontos de encontro do público foi o Sobrado Aymorés, localizado na Rua Direita. O espaço recebeu os aclamados espetáculos paulista “Hell”, de Edson Calheiros e Elenita Queiroz e “A Flor da Lua”, criado e apresentado por Marcus Moreno. Outra peça-show que deixou o público extasiado pela sensualidade e humor foi “Yes, Nós Temos Burlesco”, um coletivo de mulheres que abusaram dos figurinos vintage para trazer reflexões das hipocrisias cotidianas. A criançada da rede pública de ensino também pôde aproveitar o espaço, com o maravilhoso espetáculo “Coisas Invisíveis”, realizado pelo Corpo Coletivo, de Juiz de Fora.

A Maria Fumaça, o Lar de Idosos e as ruas históricas de Tiradentes foram o cenário para o cortejo da Trupe Ventania, de Passos, dirigido por Maurílio Romão. O grupo encerrou sua participação no aconchegante Largo do Ó apresentando o “Auto da Paixão”. “Amei os instrumentos musicais usados. A música nos embala e dá ritmo à apresentação. Além disso, gostei dos figurinos, do texto e do fato de ter sido apresentado no Largo do Ó. Adoro esse cantinho de Tiradentes e adoro, ainda mais, teatro de rua. Foi emocionante. Até meu cachorro curtiu”, lembra o jornalista Daniel Rubens Prado.

O belíssimo largo localizado em frente à escola Marília de Dirceu também foi ocupado. Um sarau de poesia reunindo tiradentinos orgulhosos de sua cidade emocionou e proporcionou momentos de resgate da história de Tiradentes. Comandado pela professora Dora Nascimento e Aline Garcia, idealizadora do Tiradentes em Cena, o grupo foi acompanhado por projeções de fotografias de Cesar Reis.

 

Lançamento de livros, exposições, saraus e oficinas movimentam o Tiradentes em Cena.

O jardim do Sesi Tiradentes – Centro Cultural Yves Alves, recebeu o lançamento do livro Nathalia Timberg – Momentos, do jornalista e ator carioca Cacau Hygino. “Eu conto a trajetória profissional dela, passo por tudo, de uma forma rápida, mas com detalhes. Os principais trabalhos no teatro, no cinema e na tv, além dos prêmios conquistados”, revela Hygino.

Outra tarde de autógrafos que movimentou o espaço foi o lançamento do livro “Os Anos Heróicos do Teatro em Minas”, escrito pelo autor mineiro homenageado desta edição, Jota Dangelo.

A exposição “Quase Roteiro”, em homenagem ao contista mineiro Murilo Rubião, foi aberta ao público no Sobrado Quatro Cantos com um acervo interessantíssimo, reunido por Cleber Cabral. “A curadoria foi feita pensando nesse contexto do Tiradentes em Cena. Há, por exemplo, espetáculos que foram baseadas na obra do Murilo Rubião. O próprio nome da exposição enfatiza que a obra dele é muito adaptável, para o cinema, para o teatro. É um texto muito visual”, conta a coordenadora do Campus Cultural UFMG em Tiradentes, Ana Karina Bartolomeu.

O Museu de Santanna recebeu a artista plástica Lélia Parreira para a exposição “Fernando Pessoa e Outros Exercícios de Viver”, que contou, ainda, com a participação do ator e produtor da mostra, Hosanan Conceição, numa belíssima leitura dramática de obras do poeta português. “Você que está em Tiradentes, e que conhece a obra de Fernando Pessoa, venha prestigiar essa exposição de quadros feitos sobre a sua obra. Cada quadro se refere a um poema, então se você conhece, venha curtir. Se não conhece, venha conhecer”, convida Lélia.

Quem também ocupou o jardim do Museu de Santanna foi a atriz e poeta Elisa Lucinda com o seu recital-show “O Poder da Palavra”. Com muito humor e sensibilidade, a artista falou diversos poemas de sua autoria, além de trazer à tona outros poetas. Elisa também desenvolveu durante quatro dias sua oficina “Poesia Falada” no Museu da Liturgia que resultou num encontro entre alunos e professores.

A semana no Tiradentes em Cena também foi recheada de cultura. Mais de 40 alunos da Escola Municipal Professora Alice Lima Barbosa se envolveram nas criações de Bernardo Rohrmann e Renata Franca, da Companhia de Inventos, em seu “O Construtor do Imaginário” (Tiradentes). Com cenas curtas, eles mostraram a técnica de manipulação e a apresentação se desenrolou como uma divertida aula-espetáculo. “Achei muito diferente, contagiante”, afirma a professora do segundo ano Andreia Reis. Nicolas, de 7 anos, concorda. “Foi muito bom.” De acordo com Rohrmann, o espetáculo foi se formando ao começarem a levantar coisas inacabadas do atelier. “Buscamos objetos que poderiam ser transformados em bonecos para trabalhar justamente essa questão de instigar a criatividade e a imaginação”, esclarece. É o Tiradentes em Cena facilitando o acesso das crianças às artes cênicas e, principalmente, investindo em projetos de formação de plateia.

O Teatro de Sombras também foi fruto de criações artísticas ao longo da mostra. Realizada pelo Grupo Girino, os artistas Karine Terrinha, Marco Aurélio Bari e Tiago Almeida conduziram a Oficina de Teatro de Sombras que culminou numa apresentação no Largo do Museu Padre Toledo.

 

Sesi Tiradentes – Centro Cultural Yves Alves recebe espetáculos recebe espetáculos sucesso de crítica e público.

A parceria entre o Tiradentes em Cena e o Sesi Fiemg foi fortificada com as diversas apresentações de espetáculos de sucesso no palco do SESI Centro Cultural Yves Alves – Tiradentes.

A plateia ficou encantada com a estreia nacional da peça Entangling (EUA/África). Inspirados pelo trabalho da física norte-americana Lisa Randall, os bailarinos Wendy Jehlen e Lacina Coulibaly pegaram como ponto de partida o Entrelaçamento Quântico para se perderem (ou encontrarem!) em movimentos leves e densos, trazendo ao público, além da dança, aspectos do teatro físico, que tem como maior expoente o polaco Jerzy Grotowski. “O espetáculo é fantástico, até porque eu vi muita similaridade com a filosofia chinesa. O Yin e Yang, por exemplo”, pontua o músico Sandro Peregrino.

Os atores Juliana Martins e Heitor Martinez subiram ao palco com Cenas de Um Casamento (Rio de Janeiro), uma adaptação de Maria Adelaide Amaral para a obra homônima do sueco Ingmar Bergman, com direção de Bruce Gomlevsky. Durante 90 minutos, o público deu risadas, se emocionou e inquietou-se com a história de Marianne e Johan, um casal aparentemente perfeito, que precisa passar por poucas e boas para manter a harmonia da relação. “Tinha o sonho de participar do festival desde a primeira edição e tudo superou minhas expectativas. Desde a recepção até o cuidado com cada espetáculo me encantou”, enaltece a atriz Juliana Martins.

Padrinho da mostra e grande incentivador desde a primeira edição, o ator Roberto Bomtempo apresentou o espetáculo “Plinio – A história do Maldito Bendito” para uma plateia lotada. “Jamais poderia deixar de participar da mostra. A cada ano preciso inventar uma novidade para estar presente neste lugar que tanto amo”, afirmou Bomtempo.

 

Festival de Cenas Curtas leva Tiradentes em Cena para São João Del Rei.

A primeira edição do Festival de Cenas Curtas levou para o Theatro Municipal de São João Del Rei um braço da mostra Tiradentes em Cena. Com nove cenas selecionadas entre mais de 60 inscritos do Rio, São Paulo e Minas, o festival lotou o teatro e distribuiu premiação em dinheiro. Além disso, as três cenas vencedoras  (1°Alcobratas, de Luis Cláudio (Resende Costa) 2° – Joga isso fora, Elias, de Cibele Santos (Juiz de Fora) e 3° Pastora do lixão, de Jéssika Menkel (Rio de Janeiro) se apresentaram no Sesi Tiradentes Centro Cultural Yves Alves no último dia da mostra, com direito a menção honrosa para o espetáculo “Estrelas do Brasil”, de Rafael Leidens (São Paulo).

“Foram nove cenas, com estéticas e temas completamente diferentes, umas mais curtas e outras mais longas, todas num nível de médio para bom. Uma turma muito jovem, meninos novos dispostos a investir neles mesmos, a se autodirigir”, resumiu o diretor Pedro Paulo Cava, um dos jurados.

O festival é uma iniciativa do Tiradentes em Cena em parceria com a Secretaria de Cultura e Turismo de São João Del Rei e a Rococó Produções, no intuito de fomentar a produção teatral local, além de aproximar ainda mais as cidades de Tiradentes e São João Del Rei.

 

Matheus Nachtergaele encerra Tiradentes em Cena com apresentação histórica.

O Tiradentes em Cena terminou em grande estilo. No melhor estilo. A apresentação de Matheus Nachtergaele foi tão concorrida, que foi preciso abrir uma nova sessão. Duas sessões de Processo de Conscerto do Desejo, uma atrás da outra, num total de quase 400 espectadores.

Apresentação histórica, encenada pela primeira vez numa igreja, a Matriz de Santo Antônio. Um resgate da celebração entre teatro e religião.

“Eu amo a cidade de Tiradentes, e, obviamente, existir uma mostra de teatro aqui, para mim, é o melhor do mundo. Sempre que eu puder eu vou estar”, disse Nachtergaele. “Eu não pude fazer o enterro da minha mãe e não participei de nenhuma missa de sétimo dia dela ou nada disso, então, me desculpem qualquer coisa, mas é porque hoje também um pouco foi à missa da mamãe”, arrematou.